Há dias em que a vida parece apenas uma sucessão de pedras. Elas surgem sem pedir licença, interrompem o caminho, desafiam os pés e o coração. Nesses dias, penso que talvez os poetas existam para nos lembrar que nenhuma travessia é feita apenas de flores ou de obstáculos.
Drummond viu a pedra no meio do caminho mas não a escondeu, não a romantizou. Apenas a reconheceu e a guardou.
Fernando Pessoa, olhando para um horizonte ainda maior, sussurrou que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E, de repente, ele me fez entender que a grandeza de uma vida não está na ausência das dificuldades, mas na coragem de continuar.
Foi em Vinicius de Moraes que eu entendi que o amor é um verbo permanente e que há sentimentos que desejamos eternos, ainda que durem apenas o tempo necessário para transformar quem somos.
Clarice Lispector, por sua vez, me ensinou que o amor nunca coube na matemática. Ele sempre preferiu o território das contradições, onde perder também pode ser uma forma de encontrar.
Quando criança, eu li Saint-Exupéry e alí aprendi que o amor cresce quando é dividido. E assim eu mesmo cresci, dividindo todo o amor que há em mim.
Mais tarde Dostoiévski me mostrou que talvez a beleza pudesse salvar o mundo.
Talvez todos esses grandes escritores falassem sobre a mesma coisa. Talvez, no fundo, falassem sobre a capacidade humana de permanecer sensível quando tudo ao redor nos convida ao endurecimento.
Na minha antiga companhia de teatro eu li Galileu. E nele endendi que mesmo diante da negação, da censura e do silêncio, ele permaneceu com a convicção de que a Terra continuava seu movimento e a vida também. Ela nunca para por causa das nossas dúvidas.
E, por falar em dúvidas, foi Verônica Schoffstall que me disse uma das frases que mais me atravessaram nessa vida. Ela me disse que as nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o simples medo de tentar.
Talvez seja esse o legado dos grandes escritores: lembrar-nos de que existir é aceitar as pedras do caminho, amar sem fazer contas, repartir o que há de melhor em nós, acreditar que a beleza ainda importa e seguir em frente. Porque, apesar de tudo, o mundo continua girando e ele não para para que a gente conserte as nossas próprias dores. A gente aprende a ressignificá-las enquanto a gente continua a nossa caminhada.
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